PhD em neurociência, professor explica que Cannabis não mata neurônios

A Universidade Federal da Paraíba recebeu o professor Sidarta Ribeiro, um dos maiores especialistas do país em substâncias psicoativas. No fim de setembro do ano passado, ele participou do Fórum Liga Canábica, cujo tema foi a Cannabis e a política de drogas.

Ribeiro é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), PhD pela Universidade Duke, nos EUA, e diretor do Instituto do Cérebro da UFRN.

O pesquisador reforçou informações históricas sobre o uso medicinal da planta e destacou algumas de suas aplicações. “1500 anos antes de cristo há evidência do uso terapêutico da maconha. O Papiro de Ebers que mostra o uso para inflamação. A maconha contém potentes anti-inflamatórios. E tem várias substâncias na maconha que nem produzem efeitos psicoativos e que são terapêuticos, que estimulam o crescimento de ossos, anti-inflamatórios, antiepilépticas, antiproliferativas, antibacterianas. Tem muitas substâncias terapêuticas, a maconha é uma farmacopeia, é uma planta que gera muitos usos diferentes de acordo com a combinação de substâncias”, explicou o professor.

Segundo Ribeiro, o preconceito da classe médica com a Cannabis devido ao fato dela possuir efeitos psicoativos é uma contradição.

“A gente tem que ter muita clareza do que são os conflitos de interesse na guerra às drogas. E quando você encontrar um médico que enche a boca pra falar que ele enquanto médico não pode recomendar a maconha porque causa dependência, você fala ‘doutor, você bebe uísque?, o senhor fuma tabaco? O senhor passa rivotril? Porque isso tudo causa muito mais dependência”, disse.

“Se alguém perguntar se maconha faz mal, devemos responder ‘sim, ela pode fazer algum tipo de mal para algum tipo de pessoa, mas ela faz tanto bem para tantas pessoas’. E não é por causa da bula que vamos deixar de usar o remédio. Se eu for ler a bula dos efeitos colaterais dos antidepressivos é assustador. A indústria é capaz de vender remédios por décadas que tem pouquíssimo efeito e no entanto é capaz de coibir o autocultivo de uma planta medicinal, ancestral, que pode sim resolver problemas de saúde ou sintomas de muita gente. Então a gente tem que ter muita sagacidade pra entender o que nesse debate é do interesse do povo, da população brasileira e o que é de interesse de grupos, de interesses particulares”.

“A ciência por muito tempo serviu à proibição. E era uma má ciência, financiada para provar mentiras. Isso nos anos sessenta. ‘maconha mata neurônios’. Que mentira! Maconha promove novos neurônios e promove novas sinapses. Agora, isso é sempre bom? Não, depende da pessoa. Se você for na farmácia já tem pra comprar. É extrato de maconha. Custa 2.854 [reais] na farmácia, uma coisa que você poderia plantar em casa. Então tem algum problema aqui grave”, afirmou o PhD em defesa do autocultivo.

Para ele, a atual política de drogas pune não só os consumidores, como também os “pequenos traficantes”. “Usuário não é criminoso. E vou até dizer mais. O pequeno traficante que só faz varejo também não é criminoso, ele é vítima”, defendeu Ribeiro

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