Pesquisadores da USP e Dinamarca testam Cannabis para tratar depressão

Interessados em encontrar antidepressivos de ação rápida e duradoura, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Dinamarca estudaram a ação do canabidiol, um dos principais componentes da Cannabis, para tratar sintomas da depressão.

A primeira autora da pesquisa é a doutoranda Amanda Juliana Sales, bolsista da FAPESP pela USP, que faz parte do grupo de estudos do professor Francisco Silveira Guimarães, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.

Sâmia Regiane Lourenço Joca, professora na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), liderou o grupo que publicou artigo com os resultados na revista Molecular Neurobiology.

O CNPq e a dinamarquesa Aarhus University Research Foundation, com o professor Gregers Wegener, do Departamento de Clínica Médica, também apoiaram o trabalho.

De acordo com Guimarães, 40% dos pacientes que utilizam os antidepressivos convencionais não respondem positivamente ao tratamento. “Isso revela a necessidade de encontrarmos novos tratamentos, com melhor potencial terapêutico”, afirmou.

Como foi feita a pesquisa?

A análise foi feita com linhagens de ratos e camundongos, os quais passaram por situações de estresse, como nado “forçado” – não puderam usar a cauda para se apoiar no fundo devido à profundidade dos cilindros em que foram colocados.

Em alguns deles, foram aplicadas injeções de canabidiol, enquanto um grupo de controle passou pelo experimento sem a substância.

O estudo concluiu que o canabidiol induz efeitos “rápidos e sustentados”, os quais se mantém por até sete dias após um único uso. Isso acontece devido “ao aumento dos níveis de BDNF [fator neurotrófico derivado do cérebro], uma neurotrofina importante para a sobrevivência neuronal e neurogênese, que é o processo de formação de novos neurônios no cérebro”.

Uma semana após a aplicação de CBD, verificou-se elevação do número de proteínas sinápticas no córtex pré-frontal, algo relacionado à depressão em humanos. Acredita-se que “o canabidiol inicie rapidamente mecanismos neuroplásticos que contribuem para recuperar circuitos neurais que estão prejudicados na depressão”, disse Sâmia Joca.

Os responsáveis pela pesquisa lembraram de estudos que indicam a possibilidade de a substância diminuir a dependência de outros antidepressivos. Eles também destacam a importância de serem realizados experimentos com seres humanos – algo que ainda é difícil devido ao tabu existente.

“O Brasil é pioneiro no estudo do canabidiol e hoje é muito diferente do que há 30 anos, quando começamos a investigar essa substância. Na época, enfrentávamos preconceito por causa da associação com a Cannabis”, disse o professor Guimarães.

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